Não há maior batalha do que a vida nem maior condecoração que a morte. DeRose
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Se você tem um relógio, sabe que horas são.Se tem dois relógios, já não tem certeza.
Sabedoria popular
Em 24 anos de viagens à Índia, estudei com vários Mestres hindus, hoje já falecidos, considerados os últimos grandes mestres daquele país. Mas a nenhum deles posso reconhecer como o Meu Mestre.
Isso confundiu um pouco os críticos que induziu-os ao erro de supor que eu fosse um autodidata, o que não é fato. Embora haja professores de yóga que alardeiem com indisfarçável orgulho que são autodidatas, esse não é o meu caso. Como a maioria, eu também considero que em Yôga, o autodidatismo não é nada louvável. É apenas uma questão de ego.
No entanto, antes de ter estudado com aqueles renomados mentores, quando bem jovem, andei à procura de alguém para ser meu Mestre físico, Mestre de carne-e-osso. Ninguém aceitou, uns por honestidade ao avaliar sua própria limitação, outros disfarçando isso com falsa modéstia ("Oh! Não, quem sou eu... não posso ser Mestre de ninguém!"). O fato é que, professor algum julgou-se apto a levar-me adiante do ponto onde eu já estava.
Muito antes de descobrir o verdadeiro Mestre gastei muita sola e muito latim (e sânscrito!) na procura. Finalmente desisti de encontrá-lo entre meus conterrâneos e comecei a buscá-lo nos indianos que vinham dar conferências no Brasil. Mas decepcionava-me seguidamente, pois era freqüente que eles não parecessem ter mais conhecimento do que os brasileiros. Em suas palestras não acrescentavam nada e por vezes deixavam muito a dever aos nossos. Só iludiam mais a opinião pública por apresentarem-se com trajes exóticos e dirigirem-se ao público em inglês. Até que certo dia, um deles, que pareceu possuir realmente algum grau mais avançado, pôs termo a essa fatigante peregrinação. Foi o Swámi Bhaskaránanda, que esteve no Brasil em 1962. Tive a oportunidade de estar com ele e expor minha expectativa. Ele esclareceu:
- Seu Mestre ainda não sou eu, nem é nenhum dos da sua terra. Ele é maior do que todos nós juntos e tem muito mais a lhe transmitir do que o mero conhecimento intelectual. Não se preocupe em achá-lo. Ele é que vai achar você, mas só no momento certo, quando estiver mais amadurecido e puder entender.
A partir daí, fiquei tranqüilo e parei de buscar. Ao invés disso, passei a investir todo o meu tempo no aprimoramento necessário para me colocar à altura de um tão grandioso Mestre. Forçosamente tive que ler pencas de livros, fazer muitos cursos e conhecer bastante gente. No meio, vinham coisas boas, coisas ruins e muitas fraudes.
Entre várias experiências positivas, uma é especialmente digna de nota. Foi o meu relacionamento com um professor que deixou claro que não poderia ser meu Mestre, mas propôs-se com muita honestidade a me preparar a fim de tornar-me apto a contactá-lo.
Além dos ensinamentos formais e das aulas regulares, ele me punha o braço sobre o ombro e levava-me a longas caminhadas nas quais transmitia coisas muito mais interessantes. Por vezes, mandava-me ler livros difíceis de se encontrar ou muito caros ou, ainda, escritos em idiomas que eu não entendia:
- Se você quer aprender algo que valha a pena, não perca tempo com publicações populares e não meça esforços para adquirir ou para ler as obras principais, qualquer que seja o seu preço e ainda que estejam em outras línguas. Se lhe mando ler um livro que só exista em inglês, francês ou espanhol, aprenda a língua e leia o livro.
Ele também me permitia ir à sua casa estudar em livros muito antigos e que, pelo jeito, nunca tinham ido ao grande público. Um dia o Professor me fez sentar diante dele, olhou-me nos olhos e disse:
- Noto que você tem lido livros de diversas linhas do Conhecimento, que não indiquei. Sei que o tem feito na louvável intenção de adquirir um progresso mais abarcante e universal. Mas esse procedimento não é aconselhável. Por mais que leia, jamais irá, por isso, alcançar o Conhecimento. Ele não pode ser conquistado por leitura, uma vez que está acima do intelecto. Os livros que tenho recomendado são escolhidos criteriosamente para lhe proporcionar uma base sólida num sentido bem definido e isso é tudo. Você deve escolher uma filosofia e, dentro dela, definir-se por uma só de suas linhas. E então, segui-la com toda a dedicação. Leia o suficiente sobre ela, menos sobre as outras, pratique-a bastante e não misture com mais nada. Espere que o seu Mestre chegue e que ele lhe imponha as instruções e restrições que couberem para o seu caso. A partir desse dia, cumpra-as à risca, custe o que custar.
- Tem certeza de que o meu Mestre não é o senhor?
- Tenho. A sua linhagem, a tradição para a qual você nasceu, é superior à minha. Nesta etapa do discipulado sou apenas incumbido de lhe proporcionar o impulso inicial. Você deve dar atenção especial aos livros de Yôga. Mas, mesmo no Yôga, existem muitos ramos. Você vai ter que descobrir qual é aquele que lhe veste como uma luva. Os outros lhe serão inúteis e até prejudiciais.
- Não compreendo. Pensava que todas essas escolas filosóficas se complementassem e apoiassem umas às outras. Achava que o estudo da Teosofia, Rosacruz, Antroposofia, Esoterismo, Hermetismo, Eubiose, Cabala, Magia, Alquimia e Yôga se reforçassem mutuamente...
- De forma alguma. Todas essas correntes originaram-se em princípios diferentes, em países diferentes, épocas diferentes, culturas diferentes e têm objetivos diferentes. Com o tempo, foram se distanciando ainda mais, de tal forma que hoje quase todas são praticamente antagônicas entre si. E o Yôga não tem nada a ver com tais filosofias, artes e ciências. A confusão foi criada por buscadores crônicos que detinham pouco conhecimento e muita curiosidade. Os maiores Mestres costumam seguir uma só coisa e exigir isso dos seus discípulos. Preste muita atenção nisto: cada filosofia pode conduzir o ser humano a uma meta diferente. Como todas essas metas estão muito acima do entendimento do leigo, ele imagina que ao longe, acima das nuvens, essas paralelas se encontrem. Mas é apenas uma ilusão da perspectiva. Mesmo se assim não fosse, mesmo se todas levassem ao mesmo lugar, considere que muitas são as estradas que levam a Roma, mas você tem de percorrer apenas uma.
- Acontece que sinto um impulso quase irresistível para estudar todas as ciências, artes e filosofias, do oriente e da antiguidade. Isso deve ser um sinal de que a minha vocação é essa pois, ao estudá-las, não faço confusão alguma e até encontro pontos de conciliação. Será que a minha natureza real não é esta? Quero dizer, estudar todas as coisas para encontrar uma linguagem comum que as concilie?
- Não, meu caro. Todavia, acho que você deve continuar nessa busca eclética até concluir por sua própria experiência que isso é tempo posto fora e que é extremamente arriscado.
- Arriscado?
- Sim. Seguir duas escolas ou dois Mestres é como acender uma vela nos dois lados. Você está se excedendo muito além disso. Portanto, por medida de segurança, vou deixar que você continue estudando os livros da minha biblioteca, mas não vou lhe ensinar mais nenhum exercício enquanto você não se definir pela senda que pretende trilhar.
- Mas, Professor...
- Não argumente. Não quero desenvolver em você os poderes enquanto não souber exatamente o que fará com eles, e se terá equilíbrio e disciplina para merecê-los.
Terminado o passeio, voltei aos livros. Queria lê-los todos, porém agora preocupava-me a advertência do Professor. Procurei o Grão-Mestre de uma das ordens iniciáticas que freqüentava e expus-lhe resumidamente o meu dilema. Ele respondeu com uma história.
- Meu filho. Um dia fui visitar o Grão-Mestre que me precedeu neste cargo. Ele me recebeu em sua imensa biblioteca. Estantes enormes reuniam milhares de livros onde se viam nomes como Paracelso, Agrippa, Avicena, Cagliostro e outros sábios. Ao ver tais obras não pude deixar de exclamar: "Como gostaria de poder um dia ler todos esses livros!" E o meu anfitrião respondeu com indiferença: "Seria uma grande perda de tempo. A sabedoria não está neles." O problema é que só compreendi isso trinta anos depois, quando já os havia lido...
Num misto de perplexidade e decepção, fui consultar um professor de Yôga, em cuja linhagem eu estava pleiteando Iniciação. Queria que alguém me dissesse o contrário. Precisava de uma só pessoa abalizada que me desse um grama de incentivo para voltar às leituras diversificadas e à salada de práticas e exercícios, nas diversas ordens, sociedades e fraternidades. Afinal, aquilo tudo era fascinante! Mas foi uma água fria na fervura. Ele confirmou tudo o que os outros já haviam dito e foi mais além. Disse que não me daria a Iniciação a menos que me desligasse de tudo o que já havia estudado até então e aceitasse começar da estaca zero!
Fiquei chocado. Como é que um Mestre poderia ser mesquinho a esse ponto? Expus-lhe educadamente essa minha estranheza e obtive a seguinte resposta:
- Não se trata de atitude mesquinha. Trata-se apenas de protegê-lo. Imagine que o discípulo é como um equipamento eletrônico e o Mestre é o técnico que deverá reprogramá-lo para aumentar sua potência e desempenho. Se você tiver dois ou mais Mestres, estará com cada um mexendo no painel e estabelecendo ligações entre seus fios sem saber o que os demais estarão fazendo do outro lado. Isso ocasiona seguramente um curto-circuito e incendeia o equipamento, que é você. Por isso, não o aceitarei a menos que pare tudo, para seguir somente o que eu lhe ensinar.
Não restava nenhuma dúvida. Todos eram unânimes em desaprovar o ecletismo, esse mesmo ecletismo que entraria em moda dez anos depois na América, com o rótulo de universalismo e mais tarde o de holística, mas na verdade uma miscelânea de conhecimentos e técnicas muitas vezes incompatíveis, e que fizeram inúmeras vítimas entre a juventude desavisada e entre espiritualistas ingênuos.
Um exemplo típico do choque de egrégoras são os sikhs da Índia. Vendo que os muçulmanos e os hindus se perseguiam, torturavam e matavam mutuamente numa interminável guerra "santa", que se odiavam, em nome de Deus, um grupo formado por indianos de ambas as religiões fundou uma seita pacifista, o sikhismo, que tinha a proposta de ser um pólo conciliatório entre as duas e reconhecia preceitos do hinduísmo e do islamismo. Resultado: tanto uma quanto a outra declarou os sikhs como hereges e infiéis... e as duas passaram a perseguí-los mais furiosamente do que ao antigo inimigo!
Eu mesmo pude testemunhar que todos quantos tentaram uma conciliação entre Mestres ou escolas supostamente compatíveis, acabaram tendo sérios problemas de psiquismo e de saúde física, produzidos por desarmonização energética. Testemunhei cenas e fatos tão graves que sua memória justifica plenamente alguma insistência sobre este assunto.
Por tudo isso, a partir de uma determinada época eu me defini e passei a dedicar-me estritamente ao Yôga, começando a me desligar progressivamente de todas as outras correntes, o que foi extremamente saudável.
Hoje só aceito como discípulo ou como professor da nossa linhagem quem me convencer de que já sabe o que quer, que será leal e que não vai ficar buscando aqui e ali, neste e naquele livro, nem misturando os ensinamentos deste e daquele Mestre.
Extraído do livro Quando é preciso ser forte, do Mestre DeRose, Ed. Nobel