Lamento em ti, não as tuas penas, mas as tuas lamentações. DeRose
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Sempre que me perguntavam quem era o meu Mestre, eu respondia sinceramente que não tinha Mestre algum. Acho que não sentia orgulho nem tristeza por isso. Era um fato. Eu não contava com a orientação de nenhum mentor de carne-e-osso. Só muitos anos depois comecei a ligar as circunstâncias relatadas aqui e cheguei a uma curiosa conclusão que vou expor no final deste capítulo.
Tudo começou em 1960 numa das iniciações que recebi. Quando o ritual terminou minha madrinha disse-me:
- Na hora em que fez o Juramento, vi o seu Mestre diante de você. Era um hindu com olhar fulminante, mas por trás do qual pude perceber uma bondade imensa. Tinha a pele muito escura, longos cabelos e barbas, totalmente brancos. Ele o abençoou e desvaneceu-se.
Não dei grande importância, uma vez que sempre tive um temperamento deselegantemente céptico. Esse cepticismo poupou-me um bom número de dissabores. Assim, esqueci o sucedido.
Passados alguns anos, certo dia entrei em um táxi, sentei-me, disse aonde queria ir e seguimos viagem. Dali a pouco comecei a notar que o motorista a todo instante olhava para trás com uma fisionomia enigmática. Até que ele não se conteve e perguntou:
- Meu jovem, você é médium?
- Não - respondi laconicamente, como quem não quer conversa.
- Pois eu sou - insistiu ele. - E quando você entrou no meu carro, subiu junto um hindu que está ao seu lado me olhando de cara feia. Por acaso você sabe quem é ele?
Eu não sabia e também não estava interessado. Nem associei ao caso anterior, afinal, tinham-se passado vários anos. Ficou por isso mesmo.
Alguns anos depois, uma aluna me sondou:
- Professor, o que o senhor acha do espiritismo?
- Acho muito bom para os espíritas.
- O senhor tem algo contra?
- Não, ao contrário...
- Então, iria a uma sessão no meu centro?
- Não. Já fui a muitas na minha fase de busca. Achei interessante, mas não é a minha linha.
- E se eu o convidasse, o senhor recusaria?
Em 1969 eu ainda não estava convencido dos riscos de misturar egrégoras. Assim, aceitei. Marcamos a data e, no dia, lá estávamos nós.
A sessão era de Umbanda. Naquela época dividia-se o espiritismo em "de mesa" e "de terreiro". Depois surgiram correntes que discordavam dessa divisão e declaravam que devia ser considerado como espiritismo apenas o Kardecismo. A divisão antiga era mais técnica, pois caracterizava como espiritismo todas as linhas que utilizassem mediunidade.
O terreiro era bonito, bem organizado, as pessoas cordiais e tinha uma ótima vibração. Em dado momento uma entidade incorporada dirigiu-se a mim e disse mais ou menos o seguinte:
- Você, garoto, está fazendo uma prática errada na sua salinha azul.
Eu não tinha nenhuma salinha azul. Mas logo recordei que no início das aulas fazíamos uma mentalização azul celeste e a impregnávamos nas paredes, chão e teto, como uma redoma de luz. Era possível que o sensitivo/médium estivesse percebendo essa cor e não a tinta das paredes. Fiquei um pouco ferido no meu amor-próprio juvenil, entretanto, podia mesmo estar fazendo algo errado, afinal, era moço e inexperiente. Então, perguntei o que seria.
- Uma vez por semana você junta as pessoas numa roda (era o sat chakra) e manda energias boas para as pessoas que estão precisando, não manda? Uhn?
- É, de fato. E o que há de mal nisso?
- Mal é que você está se esquecendo de se defender, fechando a proteção no final da prática. Tá pensando que é imortal, é? Imortal sou eu que já morri. Você só está ainda com saúde por ter um guia hindu muito forte, que lhe protege
Em seguida, descreveu-o. Era a mesma figura! Aí associei com as cenas anteriores e mais uma, bem mais antiga, que se havia apagado da minha memória: quando guri, eu tinha feito o desenho de um ancião que correspondia a todas aquelas descrições. Chegando em casa, procurei o tal esboço. Encontrei-o no fundo de um armário, no meio de velharias e, pelo sim, pelo não, resolvi pô-lo em um quadro, na parede do meu Núcleo de Yôga.
Já estava pronto para responder à contestação de um aluno mais crítico com alguma coisa do gênero "no creo en brujas, pero que las hay, las hay". Qual não foi a minha surpresa quando uma aluna entrou, olhou e disse:
- É ele! É ele! Eu o vejo desde criança...
Cenas como essa repetiram-se muitas vezes.
- Eu sonho com esse velho há muitos anos, professor. Quem é ele?
Eu não sabia.
Eu não sabia quem era mas, obviamente, era alguém. E alguém que, pelo jeito, gostava muito de quem praticava Yôga... A partir daí comecei a meditar naquele rosto, utilizando-o como yantra para a meditação de primeiro grau. Era fascinante como conseguia uma concentração tão boa e alcançava níveis de consciência bem razoáveis.
Em pouco tempo surgiu uma "legenda": era a palavra Bháva. E depois foi completada: Bhávajánanda. Eu não sabia o que era, mas experimentei utilizar essa palavra como mantra para a meditação de segundo grau.
A partir do dia em que associei o yantra com o mantra (o rosto com o nome), começaram a ocorrer percepções muito boas, insights ultra significativos. Foi assim que aprendi todas as coisas que ainda estavam faltando para elaborar a codificação do Dakshinacharatantrika-Niríshwarasámkhya Yôga. Após a sistematização, para simplificar, denominei-o Swásthya Yôga, nome esse que me surgira intuitivamente e foi confirmado mais tarde no Sanskrit-English Dictionary, de Monier-Williams.
Todos os conhecimentos que recebi por aquele processo tiveram confirmação posterior através de literatura, de contatos diretos com eruditos e através de viagens à Índia. Isso somado a outros fatores, levou-me a concluir que a figura do ancião de olhar severo devia ser do meu Mestre, que Bháva ou Bhávajánanda seria o seu nome e que, provavelmente, eu lhe devia tudo o que aprendera antes, "sozinho".
Entretanto, isso não estava me agradando nada. Meu senso crítico não me permitia declarar essas coisas em público.
Ademais, como convencer os outros se eu próprio não estava convencido plenamente? E isso me deixaria vulnerável perante os opositores. Uns diriam: "é um místico, visionário". Outros poderiam até ir mais longe: "um mentiroso, impostor". Por isso preferi guardar silêncio durante os primeiros dez anos. Nos dez anos seguintes passei a mencionar discretamente. Só agora, mais de vinte anos depois, quando já tenho a reputação de profissional avesso ao misticismo, é que julguei oportuno divulgar estes fatos, pois sei que hoje ninguém vai me considerar "um gajo que vê coisas".
Além do mais, creio que atualmente tenho uma explicação plausível.
Quem é Bhávajánanda? É meu Mestre, quer tenha vivido, quer não, pois foi através dele, ou seja, da motivação do seu retrato, que consegui me concentrar o bastante para ir no fundo do inconsciente, resgatar conhecimentos ancestrais que são patrimônio da humanidade.
Através dele, reverencio a memória do patrono da nossa linhagem nobre de Yôga Tantra-Sámkhya. Alguém tem que ter sido o primeiro. A esse, rendo homenagem durante o pújá, no início de cada prática.
Caso tenha vivido, seu nome terá sido mesmo Bhávajánanda? Não faz a mínima diferença. Moisés também não se chamava assim, nem Jesus. Estas são distorções idiomáticas enormes dos seus nomes originais em hebraico. Nem por isso eles deixam de merecer o reconhecimento de milhões de contemporâneos em todos os continentes. Nomes são apenas códigos verbais para lograrmos associação com o objeto que designam.
Sendo, Bháva, outro nome de Shiva, o criador do Yôga, Bhávajánanda poderia ser o próprio Shiva? Poderia, já que Bhávajánanda é considerado o patrono da nossa estirpe, a qual, por sua vez é a mais antiga. Ora, pode-se entender que o criador da linhagem mais antiga só pode ter sido o próprio criador do Yôga em si, Shiva.
Contudo, a explicação ficou ainda mais estimulante quando descobri, num livro do psicanalista Carl G. Jung, uma declaração sua de que tudo o que havia aprendido de psicologia a partir dos dez anos de idade, não fora nos livros nem nas escolas, mas sim com o velho sábio. Alguém o pusera, certa vez, contra a parede, por causa dessa declaração, acusando-o de vidente, sonhador, não-científico. Porém, ele respondeu categoricamente:
- Não, eu nunca disse que vi o velho sábio.
Se nunca o viu, como sabe que é um velho?
- Essa é a imagem arquetípica da sabedoria no inconsciente humano. Feche os olhos e imagine um sábio. O que vê você? Um jovem? Ou um velho? O velho sábio Philemon é apenas isso: um símbolo de sabedoria.
Um dia, aconteceu uma exposição da obra de Jung no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e lá estava o desenho do velho sábio, segundo consta, feito pelo próprio Jung. Além de outros símbolos que comento em alguns cursos, havia um que me chamou muito a atenção. As mãos do sábio estavam em Shiva mudrá, o gesto que fazemos no início e no fim de cada prática ortodoxa e que existe no Yôga da Índia há milênios.
Entretanto, antes de todas essas coisas, tive a minha fase de inquietude, incerteza e indagação. Não satisfeito com tudo o que aprendia nessas meditações com o Mestre, um dia quase matei a galinha-dos-ovos-de-ouro. Com aquele meu senso crítico exacerbado, bloqueei muitas boas percepções para questioná-las e as perdi no torvelinho do intelecto. Numa dessas vezes, quis obter provas do Mestre de que aquilo não era uma doce ilusão. Recebi como resposta uma bordoada com manopla de ferro. Captei a última mensagem:
"Eu Sou aquele que não tem nome nem forma.Não te importes tanto se vivi há muito ou há pouco tempo,Se no Oriente ou no Ocidente. Importa que eu vivaAqui e agora, dentro do teu coração."
Passei anos sem aprender mais nada. O Mestre sabe ser severo quando é preciso. Só depois de muito tempo, e de ter descido ao Hades é que voltei a evoluir no Swásthya Yôga. Por isso, considero que as fases difíceis pelas quais passei, fizeram parte das provas iniciáticas que me permitiram cruzar o Umbral.
Extraído do livro Quando é preciso ser forte, do Mestre DeRose, Ed. Nobel