Sê perseverante como o mar que há milênios tenta subir pela areia. DeRose
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Chegando ao meu destino, a cidade de Rishikesh, fiquei apaixonado pelo lugar. O rio Ganges corre límpido e caudaloso nessa região montanhosa, relativamente próxima da nascente. Pode-se meditar às suas margens, banhar-se em suas águas, cruzar o rio de barco ou pela ponte pênsil. Rishikesh é uma cidade muito bonita e imantada com a magia dos séculos. Era uma emoção simplesmente estar ali e saber que aquele solo foi pisado por alguns dos maiores iluminados dos últimos 5.000 anos. Ainda hoje, swámis (monges) e saddhus (ermitões) são vistos com freqüência. Há dezenas de mosteiros, templos e Mestres de Yôga, de Vêdánta e de outras disciplinas. Os curiosos geralmente deixam-se seduzir pela multiplicidade de escolas e começam a agir como crianças à solta numa loja de chocolates. Misturam tudo, fazem uma bruta confusão e não aprendem nada.
Eu sabia o que queria. Estava indo para o Sivánanda Ashram (pronuncie Shivánanda Ashram), um dos mais conceituados mosteiros da Índia. Nenhum outro chamariz iria me desviar da meta. Lá encontrei coisas realmente muito boas, tanto que voltei a essa entidade quase todos os anos a partir de então. Nesse ashram tive a oportunidade de aprimorar mantras, conhecer mais variedades de pújá, melhorar o sânscrito (especialmente a pronúncia), desenvolver Karma Yôga, Bhakti Yôga, Rája Yôga, sat sanga, meditação, teoria Vêdánta e travar contato com o verdadeiro Hatha Yôga da Índia, o qual não tem nada a ver com a caricatura praticada no Ocidente com esse mesmo nome.
A partir dessa viagem pude compreender o motivo pelo qual os outros instrutores do meu país eram tão agressivos com relação ao nosso trabalho: suas aulas não tinham nem semelhança com o verdadeiro Yôga.
Cheguei mesmo a perguntar em várias escolas célebres, de várias regiões da Índia, o que seriam aquelas coisas oferecidas como Yôga ao público desinformado e ingênuo da nossa pátria. A maioria era pura invencionice da cabeça dos supostos professores, que misturavam coisas tais como ginástica, antiginástica, bioenergética, ocultismo, espiritismo, zen, dança, expressão corporal, macrobiótica, shiatsu e davam às diferentes misturas o mesmo nome genérico de Yôga (aliás, yóga)!
Uma coisa que me chamou a atenção nas práticas de Hatha Yôga da Índia foi o fato de não encontrar lá aquela insistente repetição dos estribilhos comuns nas aulas de Hatha do Ocidente, recitados com voz doce e de impostação hipnótica, tais como: "calma... não force... suavemente... ótimo, muito bem... cuidado... isso é perigoso..." Ao invés, encontrei ordens severas: "Força! Você pode fazer melhor do que isso! Quero ver mais empenho nessa execução! Agüente mais!" Eu era jovem, desportista e praticava muito bem os ásanas. Não obstante, às vezes ficava com o corpo todo dolorido depois de uma aula, coisa que no Ocidente não se admite. Mais tarde concluí que a maneira deles era mais coerente, pois Hatha significa força, violência.
Na minha primeira prática de Yôga no Sivánanda Ashram, o professor mandou-me executar exercícios adiantados, como padmásana, nauli, sirshásana, vrishkásana, mayurásana e outros. E isso sem pedir nenhum exame médico, o que denota um espírito muito mais descomplicado da parte deles. Falou-se livremente sobre a kundaliní (pronuncie sempre com o í final longo), sem o professor assustar ninguém nem exagerar seus eventuais perigos.
Outra demonstração da descontração reinante no Yôga da Índia é o fato de as aulas serem dadas num clima informal, no qual está aberta a possibilidade do diálogo e até mesmo a de uma anedota posta por um aluno em classe, como ocorreu nesse inverno de 1975. Havia um monge velhinho, cuja função era a de tocar o sino a cada hora certa. Estando muito frio às cinco da manhã, ele se refugiou na nossa sala de prática, onde o calor dos corpos de muitos yôgins aquecera o ambiente. No meio da aula ele começou a cochilar e pender a cabeça. Um aluno não perdeu a oportunidade de brincar:
- Olhe lá, professor! O swámiji entrou em samádhi!
O professor riu, todos riram e, em seguida, retomaram a aula com muita disciplina. Aliás, só conseguem essa descontração por existir simultaneamente um profundo senso de disciplina, respeito e hierarquia que nos falta no Ocidente.
Em suma, gostei do Hatha Yôga e do Rája Yôga experimentados no Sivánanda. Para dar uma idéia do quanto esse ashram (mosteiro) me agradou, basta dizer que ele é de tendência Vêdánta e, apesar disso, recebi lá boas aulas de Sámkhya, o que constitui um raríssimo exemplo de tolerância. Outro forte exemplo é o fato de que um dos melhores livros de Tantra Yôga foi escrito pelo fundador Sri Swámi Sivánanda, sendo ele de linha oposta (brahmácharya). Tudo isso contribuiu para, em minhas viagens posteriores à Índia, acabar freqüentando muito mais essa instituição do que qualquer outra.
Depois do Sivánanda Ashram, tive o privilégio de visitar e participar de aulas no Kaivalyadhama, de Lonavala; Iyengar Institute, de Puna; Yôga Institute de Sri Yôgendra, em Bombaim (atualmente denominada Mumbai); Muktánanda Ashram, de Ganeshpuri; Aurobindo Ashram, de Delhi; todas muito boas escolas, de renome mundial, mas cada qual apresentando uma interpretação, um método e até mesmo uma nomenclatura completamente diferente das outras. Isso me foi tremendamente educativo e ampliou minha tolerância em 360 graus. Nessas viagens conheci pessoalmente e recebi ensinamentos diretamente de grandes Mestres como Chidánanda, Krishnánanda, Nadabrahmánanda, Turyánanda, Muktánanda, Yôgendra e outros. Segundo os hindus, eles são os últimos Grandes Mestres vivos, os derradeiros representantes de uma tradição milenar em extinção.
Extraído do livro Quando é preciso ser forte, do Mestre DeRose