Divina é a carne que por deus foi criada como molhada é a lama que com a água foi feita. DeRose
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Os antigos haviam descoberto que, para a natureza, o indivíduo é fator descartável, porém, a espécie não. Esta deve ser preservada a qualquer custo. A natureza é capaz de eliminar sumariamente milhões de indivíduos se tal for útil à espécie. As sociedades de insetos nos fornecem bons exemplos disso, quando milhares de formigas ou de abelhas se sacrificam voluntariamente pelo bem do formigueiro ou da colméia. Na verdade, o ser humano não está muito distante desse comportamento. Basta lembrar nossa história de guerras tribais, depois entre nações e agora, envolvendo praticamente todo o planeta.
Que utilidade há em sabermos que a natureza descarta os espécimes, mas luta para preservar as espécies? Sob a ótica da lei natural, quando um indivíduo se reproduz, já cumpriu sua obrigação perante a espécie. E logo depois seu organismo passará a um processo mais acelerado de decadência em direção à morte. Entretanto, se ele praticar o maithuna, segregando hormônios sexuais em abundância e depois retiver o orgasmo, criará artificialmente um estado de permanente disponibilidade para a reprodução. Como a natureza preserva um reprodutor por ser muito útil à espécie, esse indivíduo será protegido contra doenças, envelhecimento e até acidentes, pois mantém-se com mais reflexos e mais inclinação a Eros que a Thânatos. Esses dois impulsos, o de vida e o de morte, estão em constante oposição nos seres humanos.
Se um psicanalista percebe uma tendência a Thânatos, presta mais atenção a esse paciente, pois ele está propenso a suicidar-se, ou a sofrer algum acidente fatal, ou a desenvolver alguma doença que o mate.
Quando o impulso de Eros é mais atuante, a pessoa manifesta melhor disposição para a vida e maior vitalidade. Logo, desfruta de mais saúde, menos enfermidades e depressão. Por isso, também apresenta menor propensão a acidentes. Muitas vezes, esses não passam de tentativas inconscientes de suicídio.
O que desperta maior interesse para este nosso estudo é o fato de que o impulso de vida é associado justamente a Eros, a divindade grega do erotismo.
De fato, em todo o reino animal, quando os indivíduos estão aptos à reprodução, quando estão bem abastecidos de hormônios sexuais, tornam-se exuberantes e muito mais fortes. Isso também poderia explicar porque a prática de maithuna tem efeito semelhante sobre os seus praticantes. Por outro lado, não será demais lembrar que a pura e simples abstinência sexual não tem o efeito mencionado, já que a natureza tende a desativar as funções que não são utilizadas. Dessa forma, em pouco tempo as gônadas deixam de segregar os preciosos hormônios e o exemplar em questão perde a vitalidade - com ela o brilho e a exuberância. O mecanismo biológico do Tantra baseia-se em manter altos os níveis de hormônios sexuais através da técnica de produzir excitação e conter o orgasmo. Não deixando a energia se esvair, o organismo mantém uma disposição constante para o ato sexual, pressuposto da reprodução, por isso a natureza o protege e preserva.
Tantra é gupta vidyá
O Tantra subsistiu durante tantos séculos por manter o low profile. Este é o grande segredo. O adepto novato costuma ser festivo, logo, escandaloso. Isso é um erro que pode ser fatal para a boa imagem do Tantra, atraindo antipatias e perseguições, como ocorreu com a linha negra.
Você pode ser superlativamente livre, mas não precisa exibir isso perante pessoas que não usufruam do mesmo privilégio. A inveja costuma ser mortal. Numa reunião, mesmo que quase todos sejam tântricos, havendo uma única pessoa que não seja iniciada, os demais devem se comportar de acordo com os princípios do profano ali presente. Mesmo entre iniciados, o tântrico só deve tecer comentários sobre suas práticas com parceiros do mesmo grupo, e os grupos são estanques, até porque podem ser de graus diferentes.
Talvez por isso, os discípulos de Rámakrishna não soubessem que o seu Mestre era tântrico, até que ele o declarasse publicamente já na meia-idade.
Extraído do livro Tantra, a sexualidade sacralizada, do Mestre DeRose